Jornalista
O governo leiloou seis campos de petróleo. Vai receber por todos eles menos da metade do que pagaram pelo de Libra, há quatro anos. E, generoso, já tem uma medida provisória prontinha para ser votada no plenário da Câmara representando uma renúncia fiscal em favor das petroleiras de R$ 40 bilhões por ano. Ou seja: 1 trilhão de reais em 25 anos, o tempo previsto para durar a caridade para com as gigantes do petróleo.
Também está pronta para entrar em pauta a reforma da previdência que aumenta o tempo de contribuição para que o trabalhador consiga –se vivo for- sua aposentadoria.
Numa boa – A generosidade federal chegou também aos domínios da lava jato. Por decisão do Ministério da Transparência, a Engevix não pode mais ser investigada, pelas estripulias que andou fazendo na Petrobras, durante dois anos. E por uma simples razão: a empresa propôs ao governo fazer um acordo de leniência –algo como uma delação premiada de pessoa jurídica. Onze outras companhias estariam usufruindo do mesmo benefício. Quais seriam? O Ministério da Transparência esconde, dizendo que o assunto é sigiloso. Ou seja: às favas com a tal da transparência.
O Tribunal de Contas da União está possesso. Diz que isso tudo é ilegal e contribui para que irregularidades prescrevam sem a devida apuração. E como as empresas não foram penalizadas, vão poder continuar contratando com os poderes públicos sem nada que as proíba.
Privatização – Oliver Hart, vencedor do prêmio Nobel de Economia, 2016, em entrevista ao Estadão sobre as atuais privatizações brasileiras: "Sou cético em relação a uma privatização motivada pela necessidade de caixa. O principal argumento para privatizar deve ser que a empresa pode funcionar de forma mais eficiente. Esse é o lado bom de uma privatização. O ruim é que a empresa pode não funcionar para atender o interesse público e usar seu poder de monopólio para aumentar preços, assumindo que essa é uma empresa enorme. A companhia privada persegue lucros mais do que qualquer coisa".
A Eletrobrás, a megaestatal de energia brasileira, já está na reta final para ser privatizada.
Intolerância – Era apenas a final do campeonato juvenil de basquete escolar. Em quadra atletas do Colégio Marista, instituição de ensino privada, paga. Do outro, os adversários do Instituto Federal de Educação do Rio Grande do Norte, entidade pública, portanto gratuita. Segundo relato do médico infectologista Alexandre Mota postado no Youtube ( https://youtu.be/i-682XfILVs ) a torcida do Marista extrapolou no viés classista ao gritar frases do tipo "sua mãe trabalha para a minha", dentre outras igualmente contundentes e preconceituosas.
A eleição americana ficou caracterizada por fenômeno de intolerância semelhante, ao que tudo indica patrocinado pela Rússia, através de Hackers. O Brasil já vem passando por este processo desde a última eleição presidencial.
O que é bom para os Estados Unidos continua bom para nós?
Tolerância – Já nos domínios da chamada Suprema Corte, ninguém pode se queixar de intolerância. Até agora nenhuma medida foi tomada após as graves acusações feitas pelo ministro Roberto Barroso ao seu colega Gilmar Mendes. Barroso acusou Mendes de ser leniente com os crimes e criminosos do colarinho branco, de patrocinar um estado de compadrio com esses personagens, de querer adequar a jurisprudência de acordo com os réus e de buscar perpetuar "a cultura ancestral de leniência e impunidade com a criminalidade do colarinho branco".
Barroso, sem falar o nome do ministro desafeto, voltou a repetir as mesmas e graves acusações em evento de procuradores da república. E ainda acrescentou:
"O mal é persistente e a desonestidade se dissimula em muitas roupagens. Quem quer que olhe em volta pode constatar que a 'Operação Abafa' de combate à corrupção é visível, ostensiva e indecente".
A sociedade espera que a senhora presidente Carmen Lúcia, o decano Celso de Melo ou qualquer um dos seus pares, se indigne e exija providências diante da gravidade do que foi dito. Ou somos todos palhaços?