Antônio Melo, Jornalista - Às vezes eu mesmo me surpreendo com a minha burrice. Teimosia, para ser mais gentil comigo mesmo e concordar com os que com gentileza me rotulam assim.
Mas, sinceramente, mesmo arriscando ser contemplado com um par de orelhas de jumento, não consigo enxergar as virtudes do capitalismo. Veja você: em 2016 bastava reunir num banquete os 43 homens mais ricos do mundo para se saber que eles tinham mais dinheiro do que 3,5 bilhões dos cidadãos mais pobres do planeta terra.
Pois bem, se você ficou um pouquinho desconfortável aí na sua cadeira, fique sabendo que no final do ano passado 26 –só 26 mesmo- desses abastados senhores, sozinhos, têm mais dinheiro do que 3 bilhões e 800 milhões dos pobres da terra.
A fortuna desse grupinho aumentou, 900 bilhões de dólares. Nada menos do que 2 e meio bilhões de dólares por dia.
Isso quer dizer que os caraminguás dos bilionários –não só desses campeões aí- aumentou 12 por cento. Já a metade mais pobre do planeta ficou mais ainda: 11 por cento mais miserável.
Ou seja: tira-se do pobre para dar aos ricos. Simples assim. Duvida?
A tal “retomada do crescimento” dá incentivos para empresas, isenções, reduz impostos, faz desonerações. Na hora que, por exemplo, uma dessas isenções vence a empresa ameaça ir embora, demitir como fez a Ambev, no Rio Grande do Norte. As montadoras de automóveis –outro exemplo- tiveram isenção de IOF, mas virou lucro. Não repassaram nada para o consumidor.
A alíquota da Imposto de Renda iguala quem ganha 4,664,68 reais e Jorge Paulo Lemann, dono da Ambev,que ganha mais que este valor por segundo. É que ambos descontam 27 por cento dos seus rendimentos.
Só que tem mais um detalhe: grande parte desses senhores nem paga imposto de renda como pessoa física. Recebe seu dinheirinho como participação nos lucros, que não incide tributos. A empresa já pagou por eles.
Mas, na minha burrice, fico olhando para essas desonerações, isenções e incentivos fiscais tendo como pano de fundo a situação dos hospitais, da falta de remédios, da segurança pública, dos estados quebrados...
Aí eu me pergunto: será que era tão prioritário assim regulamentar a posse de arma?

