Desculpa, meu leitor, mas não sou nenhum psicólogo, sociólogo, futurólogo ou PhD em Subjuntivo Imperfeito, sou apenas imperfeito. E já adianto que não gostaria de ser vidente, pois não me acho um santinho para sair por aí adivinhando o futuro. Mas o fato é que o buraco é fato concreto e, apesar de não se ter foto do fato, o buraco ainda está lá para qualquer curioso ou céptico ver − e tapá-lo, se quiser.
Agora entende, meu leitor. Eu próprio soube do fato pelo Facebook. É certo que não comentei e, se não curti, agora compartilho com essas palavras o status de minha amiga, que vergonhosamente não guardei o nome. É assim a virtoamizade: alguma coisa fica. Ou como não diria minha avó: “vão-se os dedos, ficam os anéis”.
Mas voltemos ao buraco que, talvez, por força do inverno, não consigas vê-lo direito, pois há de estar cheio de água e barro, em outras palavras, uma poça de lama. E foi por causa dessa benta lama que o óbvio se fez fato e, no desenrolar, se deu a desfeita com aquela jovem mulher, tão formosa e trabalhadora, tão educada e sem culpa, tão ela e tão vítima, pois, como qualquer condutor apenas passava pela entrada do Caminho da Bela Vista nos rumos do centro. Mas quis o destino, o cruel destino, que no caminho da jovem tivesse um buraco, desses que, sem querer o motora escapole o pneu e espirra lama no mais limpo dos passantes. Também pudera! Ela bem que poderia estar em casa vegetando, aguardando que tudo lhe caísse do céu. É nisso que dá ser trabalhador nesse país: levantar cedo! Faça sol ou faça chuva − como naquela manhã − para enfrentar mais um dia de trabalho, de estudo, ou que fosse um dia decisivo para o amor, para a família, para a alma, para Deus... Doutro modo esses buracos são verdadeiros idiotas, que, à revelia do povo, teimam em se refazer, crescendo dia após dia. Ou eles seriam imperadores ocos que não arredam nem para o trem? Ser ou não ser, o certo é que os buracos daquele entorno não são os únicos. Há muitos outros como aqueles: cínicos, crescentes e desafiadores, que ficam a tirar sarro, a debochar da cara dos transeuntes, do gemido dos veículos ao quebrar uma peça, a fazer estragos e contendas, a modificar o relevo e a paisagem, a tornar a cidade ridícula, a se intrometer com o trânsito como se fosse da Guarda Municipal. Terá sido por causa das crateras que a jovem teria tido a mãe, de um instante para outro, transformada em puta e égua. Por causa deles é que um homem teria sido enlameado pelo carro da dita moça. E por causa disso é que o carro teria ido parar no lava-jato e na oficina. E por causa desse pagamento inesperado é que a moça teria pagado com juros a prestação do Paraíba. E por causa do Paraíba é que o homem teria xingado a moça, uma vez que sua calça, nova, fora enlameada sem o primeiro pagamento. E terá sido por causa desse homem que um ciclista quase bate outro e, por causa da frenagem brusca sua filha tenha batido o dentinho no guidão.
Diante, pois, desse desgraçado efeito dominó (pois nisso não há nenhuma graça), vejo que a pergunta inicial já está amplamente respondida e sem precisar que eu me tornasse um futurólogo. Assim, é simples concluir não apenas hipóteses, mas algumas certezas. Se ali não tivesse buracos, tudo estaria bem melhor, a estrada, de fato, teria uma bela vista, as pessoas seriam mais doces, os transtornos ditos e não ditos simplesmente não existiriam. Isso implica dizer que a camada asfáltica tinha sido de qualidade menos ruim, assim como, provavelmente não haveria buracos também em outros pontos da city, já que o gestor se importaria mais com a cidade do que com reeleição familiar. Sem buracos, nosso cartão postal seria outro, as ruas seriam outras, o povo sendo também outro, agora, sim, estaria mais feliz, e a cidade não estaria na boca do povo com a original mudança de nome de Bacabal para Buracabal.
Mas, enfim, o buraco é fato e continua lá, gozando da cara do povo e o povo a se desviar dele e ele, por sua vez, a desviar a atenção do povo de muitos outros buracos.
Resta-me perguntar à dona dos buracos: E então, cidade, e se não houvesse outros buracos?
Por Edgar Moreno
COSTA FILHO, João Batista da que também representa o heterônimo Edgar Moreno.
Agora entende, meu leitor. Eu próprio soube do fato pelo Facebook. É certo que não comentei e, se não curti, agora compartilho com essas palavras o status de minha amiga, que vergonhosamente não guardei o nome. É assim a virtoamizade: alguma coisa fica. Ou como não diria minha avó: “vão-se os dedos, ficam os anéis”.
Mas voltemos ao buraco que, talvez, por força do inverno, não consigas vê-lo direito, pois há de estar cheio de água e barro, em outras palavras, uma poça de lama. E foi por causa dessa benta lama que o óbvio se fez fato e, no desenrolar, se deu a desfeita com aquela jovem mulher, tão formosa e trabalhadora, tão educada e sem culpa, tão ela e tão vítima, pois, como qualquer condutor apenas passava pela entrada do Caminho da Bela Vista nos rumos do centro. Mas quis o destino, o cruel destino, que no caminho da jovem tivesse um buraco, desses que, sem querer o motora escapole o pneu e espirra lama no mais limpo dos passantes. Também pudera! Ela bem que poderia estar em casa vegetando, aguardando que tudo lhe caísse do céu. É nisso que dá ser trabalhador nesse país: levantar cedo! Faça sol ou faça chuva − como naquela manhã − para enfrentar mais um dia de trabalho, de estudo, ou que fosse um dia decisivo para o amor, para a família, para a alma, para Deus... Doutro modo esses buracos são verdadeiros idiotas, que, à revelia do povo, teimam em se refazer, crescendo dia após dia. Ou eles seriam imperadores ocos que não arredam nem para o trem? Ser ou não ser, o certo é que os buracos daquele entorno não são os únicos. Há muitos outros como aqueles: cínicos, crescentes e desafiadores, que ficam a tirar sarro, a debochar da cara dos transeuntes, do gemido dos veículos ao quebrar uma peça, a fazer estragos e contendas, a modificar o relevo e a paisagem, a tornar a cidade ridícula, a se intrometer com o trânsito como se fosse da Guarda Municipal. Terá sido por causa das crateras que a jovem teria tido a mãe, de um instante para outro, transformada em puta e égua. Por causa deles é que um homem teria sido enlameado pelo carro da dita moça. E por causa disso é que o carro teria ido parar no lava-jato e na oficina. E por causa desse pagamento inesperado é que a moça teria pagado com juros a prestação do Paraíba. E por causa do Paraíba é que o homem teria xingado a moça, uma vez que sua calça, nova, fora enlameada sem o primeiro pagamento. E terá sido por causa desse homem que um ciclista quase bate outro e, por causa da frenagem brusca sua filha tenha batido o dentinho no guidão.
Diante, pois, desse desgraçado efeito dominó (pois nisso não há nenhuma graça), vejo que a pergunta inicial já está amplamente respondida e sem precisar que eu me tornasse um futurólogo. Assim, é simples concluir não apenas hipóteses, mas algumas certezas. Se ali não tivesse buracos, tudo estaria bem melhor, a estrada, de fato, teria uma bela vista, as pessoas seriam mais doces, os transtornos ditos e não ditos simplesmente não existiriam. Isso implica dizer que a camada asfáltica tinha sido de qualidade menos ruim, assim como, provavelmente não haveria buracos também em outros pontos da city, já que o gestor se importaria mais com a cidade do que com reeleição familiar. Sem buracos, nosso cartão postal seria outro, as ruas seriam outras, o povo sendo também outro, agora, sim, estaria mais feliz, e a cidade não estaria na boca do povo com a original mudança de nome de Bacabal para Buracabal.
Mas, enfim, o buraco é fato e continua lá, gozando da cara do povo e o povo a se desviar dele e ele, por sua vez, a desviar a atenção do povo de muitos outros buracos.Resta-me perguntar à dona dos buracos: E então, cidade, e se não houvesse outros buracos?
Por Edgar Moreno
COSTA FILHO, João Batista da que também representa o heterônimo Edgar Moreno.