Frriiiiii! – o apito ecoa alto e rápido em um dos pontos de blitz da cidade. O PM sinaliza ao estacionamento. O motociclista obedece. E o policial com a atenção dividida entre um veículo e outro:
– A habilitação e o documento, por favor.
− Arre, égua! Não trouxe – responde o motociclista arregaçando os bolsos.
– A moto vai ter que ficar retida.
− Não! Isso não! Que é isso, camarada, quebra o galho aí.
− Quem quebra galho é macaco. Isso é ordem superior do comandante Ortoberto: a partir de hoje garupa somente com capacete; dirigir, só com habilitação, além de outras medidas de segurança e prevenção que todo mundo vinha fazendo vista grossa aqui na cidade.
− E isso vai funcionar, em pleno ano de eleição?
− Aí é que o senhor se engana... Em ano de eleição os cofres têm que estar cheios para a campanha. Mas deixe de papo furado, me dê a documentação sua e da moto.
− Porra, merda! Já disse que esqueci! Só me faltava essa!
− O senhor bebeu?− pergunta o PM, encarando o semblante do condutor.
− Não... Quer dizer... Mas eu posso ir buscar a habilitação e o IPVA em casa. É bem pertinho e prometo que volto. Só tenho aqui o RG. Veja.
− Eu lhe perguntei se o senhor andou bebendo!
− Não senhor, eu não consigo andar e beber ao mesmo tempo. O senhor consegue?
− Está de gracinha comigo? ― avermelha-se o PM.
− Se Vossa Senhoria estiver falando de minha patroa pode baixar o facho. A Gracinha nunca esteve com ninguém. Ela sempre me foi fiel e deve estar em casa assistindo sua novela favorita.
− Agora, além da apreensão da moto, que nem sei se é sua, vamos ter que fazer o teste do bafômetro.
− Topo na hora! Eu sempre quis conhecer essa geringonça. Mas o senhor também bebeu?
− Como assim, seu motora truculento! É claro que não bebi. Mas por que está perguntando isso?
− É por que Vossa Senhoria...
− Isso é uma ironia?
− Não, é respeito.
− Pois continue ― sugere o policial, posudo.
− É porque Vossa Senhoria disse: “Vamos ter que fazer o teste do bafômetro”.
− Que bafômetro? Ah, isso é um modo de falar. Sabe como é a língua portuguesa, né...
− Já vi que quem está bêbado aqui não sou eu...
− Se o senhor insistir em me irritar, eu mando prendê-lo por desacato à autoridade.
− E eu posso processá-lo por abuso de poder.
− Você não sabe o que diz; é um bêbado. Vamos, estacione ali. O reboque vai levar a moto e o senhor pode até ir preso por dirigir em estado de embriaguez.
− Sou um cidadão de bem.
− Um cidadão de bem não põe a vida dos outros em perigo.
− E um cidadão de bem também não pode tomar sua cervejinha? Vocês deviam estar era prendendo os bandidos. A cidade está um caos em criminalidade. É só o que se vê nos canais da TV local.
− Vá dizer isso às autoridades.
− E Vossa Senhoria não é uma autoridade?
− Sim, eu sou, mas... Olhe, o senhor está me atrapalhando e o trânsito também. Veja o fluxo de veículos, tudo para ser verificado.
− Culpa do governo que não oferece o contingente de policiais necessário à população.
− Vá dizer isso no Palácio dos Leões ou ali na Câmara Municipal.
− E adianta?
− O senhor devia ser um político.
− Deus me livre. Prefiro ser um politizado.
− Pois dê cá sua chave e espere o reboque ali, ou então vá para casa.
− Daqui eu não saio.
só ler o artigo 172. De infração grave temos o fato de dirigir carro em mau estado de conservação.
− Mas isto não é um carro, é uma moto.
− Dá no mesmo.
− No mesmo uma ova! Carro é carro; moto é moto. Vou recorrer ao DETRAN.
− Recorra. É um direito que lhe assiste. Mas voltando ao seu veículo, veja: está uma calamidade, parecendo o carro velho do rabugento! Nesse caso temos uma falta grave, com multa de R$127,69 e 5 pontos na carteira. Quanto às infrações gravíssimas, com sete pontos na carteira, temos o fato de o senhor está dirigindo embriagado. A multa, segundo o artigo 165 do CTB, é de R$957,60 podendo ser multiplicado por cinco vezes, suspensão do direito de dirigir, detenção de seis meses a três anos e sete pontos na carteira, tudo isso agravado pelo fato de pôr em risco, pedestres e outros veículos, com infração também gravíssima e multa de R$191,54, retenção do veículo e recolhimento do documento de habilitação. E ainda tem o desacato à autoridade...
Isso tudo vai girar em torno de...
Vrrruuuummmmm...
− ?! Seu Astrogildo! Seu Astrogildo! Frrrriiiiiiii! Segura o homem, guarnição! Segura o homem! Ué, mas a moto dele está aqui! Segura o homem, guarnição... Aquele lá, de camisa preta, que vai com o mototáxi!
Por Edgar Moreno
COSTA FILHO, João Batista da que também representa o heterônimo Edgar Moreno.
– A habilitação e o documento, por favor.
− Arre, égua! Não trouxe – responde o motociclista arregaçando os bolsos.
– A moto vai ter que ficar retida.
− Não! Isso não! Que é isso, camarada, quebra o galho aí.
− Quem quebra galho é macaco. Isso é ordem superior do comandante Ortoberto: a partir de hoje garupa somente com capacete; dirigir, só com habilitação, além de outras medidas de segurança e prevenção que todo mundo vinha fazendo vista grossa aqui na cidade.
− E isso vai funcionar, em pleno ano de eleição?
− Aí é que o senhor se engana... Em ano de eleição os cofres têm que estar cheios para a campanha. Mas deixe de papo furado, me dê a documentação sua e da moto.
− Porra, merda! Já disse que esqueci! Só me faltava essa!
− O senhor bebeu?− pergunta o PM, encarando o semblante do condutor.
− Não... Quer dizer... Mas eu posso ir buscar a habilitação e o IPVA em casa. É bem pertinho e prometo que volto. Só tenho aqui o RG. Veja.
− Eu lhe perguntei se o senhor andou bebendo!
− Não senhor, eu não consigo andar e beber ao mesmo tempo. O senhor consegue?
− Está de gracinha comigo? ― avermelha-se o PM.
− Se Vossa Senhoria estiver falando de minha patroa pode baixar o facho. A Gracinha nunca esteve com ninguém. Ela sempre me foi fiel e deve estar em casa assistindo sua novela favorita.
− Agora, além da apreensão da moto, que nem sei se é sua, vamos ter que fazer o teste do bafômetro.
− Topo na hora! Eu sempre quis conhecer essa geringonça. Mas o senhor também bebeu?
− Como assim, seu motora truculento! É claro que não bebi. Mas por que está perguntando isso?
− É por que Vossa Senhoria...
− Isso é uma ironia?
− Não, é respeito.
− Pois continue ― sugere o policial, posudo.
− É porque Vossa Senhoria disse: “Vamos ter que fazer o teste do bafômetro”.
− Que bafômetro? Ah, isso é um modo de falar. Sabe como é a língua portuguesa, né...
− Já vi que quem está bêbado aqui não sou eu...
− Se o senhor insistir em me irritar, eu mando prendê-lo por desacato à autoridade.
− E eu posso processá-lo por abuso de poder.
− Você não sabe o que diz; é um bêbado. Vamos, estacione ali. O reboque vai levar a moto e o senhor pode até ir preso por dirigir em estado de embriaguez.
− Sou um cidadão de bem.
− Um cidadão de bem não põe a vida dos outros em perigo.
− E um cidadão de bem também não pode tomar sua cervejinha? Vocês deviam estar era prendendo os bandidos. A cidade está um caos em criminalidade. É só o que se vê nos canais da TV local.
− Vá dizer isso às autoridades.
− E Vossa Senhoria não é uma autoridade?
− Sim, eu sou, mas... Olhe, o senhor está me atrapalhando e o trânsito também. Veja o fluxo de veículos, tudo para ser verificado.
− Culpa do governo que não oferece o contingente de policiais necessário à população.
− Vá dizer isso no Palácio dos Leões ou ali na Câmara Municipal.
− E adianta?
− O senhor devia ser um político.
− Deus me livre. Prefiro ser um politizado.
− Pois dê cá sua chave e espere o reboque ali, ou então vá para casa.
− Daqui eu não saio.
só ler o artigo 172. De infração grave temos o fato de dirigir carro em mau estado de conservação.
− Mas isto não é um carro, é uma moto.
− Dá no mesmo.
− No mesmo uma ova! Carro é carro; moto é moto. Vou recorrer ao DETRAN.
− Recorra. É um direito que lhe assiste. Mas voltando ao seu veículo, veja: está uma calamidade, parecendo o carro velho do rabugento! Nesse caso temos uma falta grave, com multa de R$127,69 e 5 pontos na carteira. Quanto às infrações gravíssimas, com sete pontos na carteira, temos o fato de o senhor está dirigindo embriagado. A multa, segundo o artigo 165 do CTB, é de R$957,60 podendo ser multiplicado por cinco vezes, suspensão do direito de dirigir, detenção de seis meses a três anos e sete pontos na carteira, tudo isso agravado pelo fato de pôr em risco, pedestres e outros veículos, com infração também gravíssima e multa de R$191,54, retenção do veículo e recolhimento do documento de habilitação. E ainda tem o desacato à autoridade...
Isso tudo vai girar em torno de...Vrrruuuummmmm...
− ?! Seu Astrogildo! Seu Astrogildo! Frrrriiiiiiii! Segura o homem, guarnição! Segura o homem! Ué, mas a moto dele está aqui! Segura o homem, guarnição... Aquele lá, de camisa preta, que vai com o mototáxi!
Por Edgar Moreno
COSTA FILHO, João Batista da que também representa o heterônimo Edgar Moreno.