Todo dia é a mesma coisa: a estrada da bela vista se
atopeta do vaivém dessa boa gente, moradora da zona norte. A agitação vem desde
o residencial Bella Vista, próximo ao “Lago do Véi Nezim”, (denominação de infância),
atravessa o novo bacabal, corta a vila frei Solano Kühn até cair na estrada da bela,
para daí tomar outros destinos. Bem na esquina, o Restaurante do Povo 2, com
sua bancada de madeira, torna-se diariamente um burburinho de trabalhadores,
estudantes e famílias inteiras, que se aglomeram para “rangarem” um “bandejão”
por dois reais. A hora. A fome. O sol. A sede. O relógio. O estacionamento
lotado. São carros, caminhões da Coca-Cola, gente e tudo mais, que no correr do
dia fervilham a estrada rumo ao centro, às lojas, ao trabalho, à escola, à
vida, e às vezes rumo à morte. Essa formigagem junta gente da vila coelho dias,
da Pedro Brito, do parque Manoel Lacerda e da própria bela vista, povoado que
deu nome à estrada, a qual morre no retorno da Febac.
O cenário é intenso, diverso e engraçado. Gente indo e
vindo, gente grande e miúda, gente boa e simples, sempre alegre e ocupada a
correr contra o tempo. Não tem hora, nem sol, nem chuva, nem poeira, nem
buracos, nem nada que os faça desistir dessa vida que nasce, morre e renasce
todos os dias. Trabalhadores com seus macacões e capacetes; mototaxistas a
desviar-se no perigo iminente do trânsito; pais com filhos na cadeirinha da bike.
Uma senhora gorda a afundar a garupa da Traxx cheia de filhos; outra senhora a
pedalar, cansada, a bicicleta mal cuidada, de quebra, um saco amarrado na
garupa. Estudantes com fardas multicoloridas percorrem a extensão da Estrada.
Carroças se misturam no trajeto. Um ou outro acidente. Luzes do SAMU e da
polícia não raramente a piscar por essas bandas.
Mas, em toda a zona Norte e até na city, nenhum bairro é
mais comentado que o afamado Residencial Terra do Sol I, II, II, IV e V, que na
boca do povo, é apenas “Terra do Sol”. E pronto!
−Onde tu tá morando agora, mulher? − indagou Dona Isabel.
−Lá na Terra do Sol, respondeu Dona Feia, feliz e
orgulhosa de sua casa própria.
−Ah, quer dizer que tu também ganhou uma casa, lá, foi? −
insistiu a outra.
−“Ganhar”, num ganhei, não, Isabel, porque eu tô é
“pagando”. Pouquinho, mas tô.
−É mesmo, Siá, o povo tem esse negócio de dizer que a
gente “ganhou” casa... E tua cumade, ganhou... Quer dizer, foi sorteada também?
− Foi não, colega. E ela tá uma fera porque lá tem muita
gente que já tem casa, ou não precisa, mas tem, enquanto ela nunca teve essa
sorte...
O Terra do Sol é, de fato, o novo point da cidade! Morar
lá é top, quanto distante e perigoso. Mas, por isso mesmo e por outros fatores
é que já virou mídia. Vejamos:
Em 10.07.13 o Imirante.com divulgou: “Caixa sorteia 1.440
chaves do projeto 'Minha casa, minha vida' em Bacabal”. Oito dias depois a
imprensa anunciou o adiamento do sorteio para dia 22. No final de julho, o site
Bacabal-Ma noticiou o início de vistorias naquele bairro e em 11.11.13, o jusbrasil.com.br
informou o requerimento junto à Assembleia Legislativa, de iluminação do acesso
ao bairro. Em 19.01.14, os blogs publicam morte de idoso atropelado naquela via
em consequência da escuridão. O blog Escoteiros do Maranhão publica ação
cidadã, no bairro, pelo 6º Grupo Escoteiro Kaluanã, dia 09.02. Em 27.05, O
Mearim e imprensa em geral anunciam para junho a entrega das últimas 978
unidades habitacionais do Terra do Sol IV e V e em 11.07, as páginas dos blogs
esquentam com a notícia dum incêndio parcial de uma casa no Terra do Sol. O
blog Falando Sério denuncia em 29.07.14 problemas de estrutura em casas do novo
bairro. Em 02.08.14 a imprensa noticia outro acidente naquela artéria e, em
20.08.14 blogs divulgam a iluminação do acesso ao Terra do Sol e uma semana
depois a apreensão de dois menores por furtar um capacete e moto. E tantos
outros fatos que não foram registrados ou divulgados.
E é assim que a vida vai seguindo naquela Estrada,
naquele bairro, naquela zona
COSTA FILHO, João Batista da que também representa o heterônimo Edgar
Moreno.
Moreno.