Antônio Melo: A galinha, o ovo de páscoa e o Filho


Antônio Melo, Jornalista - A Defensoria Pública de São Paulo está pedindo a liberdade de uma mãe condenada por roubar três ovos de Páscoa e um quilo de peito de frango, em 2015. Responsável por três crianças menores de 12 anos, ela vive com o filho mais novo, de 20 dias, em uma cela superlotada da ala materna da Penitenciária Feminina de Pirajuí (SP).
Juvenal Gomes do Nascimento, 18 anos, morador da cidade de Pedra, a 275 quilômetros do Recife, foi condenado a cinco anos de prisão por roubar um galo e uma galinha.
O eletricista Mário Ferreira Lima, 47 anos, furtou dois quilos de carne em um supermercado em Santa Maria (DF), para alimentar o filho. Os policiais civis se cotizaram para pagar a fiança de 265 reais e compraram uma cesta básica para ajuda-lo. Aguarda em liberdade o julgamento do seu crime.
Uma mulher de iniciais M.P.S. foi presa em Dom Eliseu, Pará, por roubar uma galinha. Na delegacia disse que há dois dias não tinha comida em sua casa para alimentar os filhos. Ficou presa. A galinha foi solta e devolvida ao dono.
Em todos esses casos os produtos dos roubos foram recuperados.
Flávio Bolsonaro, deputado pelo Rio de Janeiro, tinha em seu gabinete um ex-policial/assessor/motorista/segurança que movimentou mais de 1 milhão de reais em sua conta bancaria. E ainda depositou R$ 24 mil na conta de dona Michelle, mulher de Bolsonaro-presidente. O abnegado servidor também recebia depósitos em sua conta, feitos mensalmente por diversas pessoas, a maioria delas funcionários do gabinete do filho do presidente-eleito.
Agora descobre-se que o senador-eleito também tinha em seu gabinete um coronel da reserva da PM carioca que recebia seus salários regularmente, mas dava expediente em Portugal. Fez mais de 200 viagens àquele país sem perder um dia de salario. A última foi de 40 dias.
Também a bela personal trainer Nathália Queiróz, filha do assessor multitarefa, dava expediente no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa ao mesmo tempo em que também dava expediente na Bodytech, a 14 quilômetros da Alerj e tinha aulas na Universidade Castelo Branco, em Realengo a 30 quilômetros dali.
Mas tudo isso não tem a menor importância. Confira:
Um dos futuros ministros desdenhou dizendo tratar-se de valores muito baixos e que o presidente já esclarecera os fatos no que toca a ele.
O implacável Sérgio Moro primeiro se negou a comentar o assunto. Depois, disse que o presidente já havia dado as necessárias explicações. E ponto final.
Moro é aquele da força tarefa que enxergou crime no fato de três senadores estarem, no Congresso, conversando sobre lei para combater abusos de autoridades, inclusive na famosa lava a jato. É bom não esquecer que uma das principais atividades de um senador é fazer leis.
Ainda é o mesmo Moro e sua força-tarefa que alardeou para todo o país que Lula tinha que ser o dono do sítio de Atibaia. Afinal, foram encontradas lá uma cueca do ex-presidente e peças íntimas da falecida Dona Marisa, além de um pedalinho com a devida nota fiscal, comprado por ela. Pouco importa que a escritura do sitio esteja em nome de uma outra pessoa. Igual ao apartamento do Guarujá que, em cartório, também não pertence ao ex-metalúrgico.
Cueca, pedalinho e sutiã servem como evidencias fortíssimas contra o ex-presidente. Escritura, não.
A galinha, o ovo de páscoa, os dois quilos de carne bastam para mandar para a cadeia um bando de pé-rapado.
Já cheque depositado na conta da futura primeira-dama, não é evidencia nenhuma. Nem depósitos na conta do mesmo servidor. Também não é crime um funcionário de Flávio Bolsonaro, na Assembleia do Rio que dá expediente em Portugal. Muito menos a menina-prodígio que consegue dá expediente no gabinete de Bolsonaro-deputado, ser recepcionista e personal trainer numa academia de ginástica e frequentar a universidade, tudo no mesmo horário.
Também é verdadeira a explicação de ser pagamento de empréstimo que Bolsonaro fez ao funcionário do filho. “Coisa pequena”, só 24 mil.
E por que o nosso presidente-eleito não foi ressarcido na sua própria conta bancária?
Quantas galinhas, quilos de carne, ovos de páscoa daria para comprar com tão “irrisórias” quantias?


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