Edgar Moreno: Bem-vindo às aulas de outrora

As nuvens exalavam um tom cinza e carregado por todo o centro antigo da velha Bacabal. A chuva forte e rápida que caiu há pouco bafeja agora um ar quente e afogadiço pelas ruas, alpendres e barracões da cidade.
Novamente a chuva desce pegando de surpresa o velho poeta Astrogildo, que corre ao Bar do Tamió. O ancião enxuga o rosto com seu lenço limpo, enquanto olha uma reca de homens jogando bilhar e bebendo no tradicional barzinho da Rua do Quebra Coco. Ele aproveita e refaz na cabeça o trajeto que fará no centro. Tira do bolso da camisa de tergal azul uma lista de materiais. Ele há de passar nas lojas de tecidos mais conhecidas e depois na livraria. Não poderá deixar de ir às Casas Pernambucanas, tanto na nova quanto na velha e também nos armazéns Paraíba e Alencar para escolher a fazenda para o fardamento de seu neto. E o avô não cabe em si a ver o menino todo entonado de uniforme novo rumando à escola: calça social e camisa de gola e botão, e nos pés Conga ou Kichute. A roupa será cosida pelo costureiro Orlando lá para os rumos da Cururupu. Já o calçado comprará no Mercado Velho. O bolso com o emblema da escola ele há de comprar na única lojinha que o tem disponível na Praça Silva Neto. O traje de educação física encontrará em A Vestil, na estreita Benedito Leite, a poucos metros da Rianil. Ali bem próximo aproveitará para se pesar na farmácia São Vivente e comprar um Sal de Andrews para o estômago choco. Daí, o velho Astrogildo precisará ir ainda até à Livraria São Francisco das Chagas comprar cadernos e outros materiais fornecidos pela FENAME a preços mais populares. Todavia, é longe, um pouco antes da Casa Elza, nos fins da Getúlio Vargas, mas o velho senhor pode então contar com o ônibus coletivo da Transcolbac.
O mapa do trajeto o ancião o fez quase à risca. Só saiu da rota quando se lembrou de ir até o Café Bacabal na Rua Osvaldo Cruz ver o produto em caroço. Enfim, lá se vai o velho poeta com suas sacolas de apetrechos escolares. Serão uma surpresa ao seu neto mais estimado. E com os passos lentos, porém firmes, começa a cogitar que somente pela educação é que meninos como aquele poderão vir a ser um bacabalense bem-sucedido, um grande comerciante, quem sabe um doutor, um professor, um político, talvez. Deus é quem sabe. Este será seu último ano primário na escola municipal. É possível, todavia, que haja atraso nas aulas, pois com a cheia do rio, o Mearim, como uma serpente, transbordará em suas curvas e os alagados da Trizidela poderão vir a ocupar a escola até que as águas baixem. O ginasial Astrogildo fará esforço de matriculá-lo na escola particular, no CONASA ou no Santa Rosa, já que o Gunnar Vingren e o Fred Halbrooks ficam-lhe contramão.
E caminha Astrogildo submergido num mar de lembranças e questionamentos: como se estudava e se aprendia no seu tempo; como se ensina e se aprende hoje. E como o será amanhã?

Concluiu por fim:
– É isso mesmo, cada tempo com seu povo; cada ensino com seu modo. Do jeito que a coisa vai, haverá um tempo em que o homem se perderá em seu próprio conhecimento, em meio a tantas informações e formas de aprender.
Deu por si já adentrando o batente da casa e o netinho pendurando-se-lhe ao pescoço.


Por Edgar Moreno
COSTA FILHO, João Batista da que também representa o heterônimo Edgar Moreno.

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