O velho Arcângelo adentra serenamente o vitral gradeado da agência Central dos Correios. A fachada pálida do sobrado denuncia de pronto uma singela imponência que ali se ergue há mais de quatro décadas. Lá se deixa estar o sobradinho público, por trás da frondosa figueira brava na calçada a enamorar de longe os olhares da Igreja Matriz.
No ar refrigerado da sala (agora sem as cadeiras confortáveis de outrora) a fila se estende torta aos quatro guichês, nem sempre disponíveis. Helena, sentada ali desde 1975, com sua simpatia negra e educada, loguinho mais vai atendê-lo. A fila o assiste meio aborrecida, meio respeitosa. Mas fazer o quê? O velho poeta goza do direito de atendimento prioritário. E disso ele usufrui o tempo suficiente para postar uma carta.
Enquanto aguarda sua vez o vivido homem ainda abre o envelope e, contemplando a própria caligrafia, vê-la um tanto trêmula, mas caprichada. Ler para si, e agora para ti, leitor, o teor lírico de suas linhas incrusto em sua alma:
Bacabal, em 25 de agosto do Anno Domini de MMXI.
Estimada Adelaide,
Cá o céu brilha intenso neste dia do soldado, e a tarde assola em batalha climática o horizonte bacabalense.
A princípio devo dizer-te que isto não se trata de uma carta e sim de um bilhete. Bem sabes que minhas cartas são longas e doces e esta quiçá te chegue um tanto amarga e repentina. Amarga pelos dissabores que trespassam o conteúdo e repentina porque não pude deixar para depois meu abraço de saudade há muito tempo adiado.
Desde que parti daí, estive observando o quanto a vida na cidade é diferente daquela que levávamos no campo. Sabe, aquela vivência aconchegante, a doçura das casinhas de taipa, o cheiro de terra molhada, a fruta doce e natural colhida no pé, tudo isso aqui cede lugar às casas esbaforidas pelo calor torrencial do asfalto, do concreto, das calçadas irregulares.
Os ares cá se atopetam de torres, fios e poluição, com lixões a céu aberto, onde meninos, mulheres, porcos, etc., se alimentam do mau cheiro e da contaminação. Aquela liberdade de prosear na porta ou à sombra dos cajueiros, aqui são um sonho e os chamados “de menor” fazem o que querem com a Justiça, que os resguarda mesmo em constante delinquência. Aqui, enfim, está um caos social que me custa acreditar. Como diz (Waldick?): “Quero voltar pro interior”.
Teria muito ainda a te falar desse mundo louco no qual me vejo incluso. Sim, pois já estou presenciando, o que diziam nossos pais, “a roda grande passar por dentro da pequena”. Essa modernidade até me faz pensar: o que será do amanhã?
Meu tempo urge, meu papel se finda. Um dia te estarei de volta. Quem sabe na primavera...
Fica por agora com meu terno abraço e minha saudade tamanha.
Arcângelo
P.S. – Beijos doces nessas crianças lindas.
COSTA FILHO, João Batista da que também representa o heterônimo Edgar
Moreno.
No ar refrigerado da sala (agora sem as cadeiras confortáveis de outrora) a fila se estende torta aos quatro guichês, nem sempre disponíveis. Helena, sentada ali desde 1975, com sua simpatia negra e educada, loguinho mais vai atendê-lo. A fila o assiste meio aborrecida, meio respeitosa. Mas fazer o quê? O velho poeta goza do direito de atendimento prioritário. E disso ele usufrui o tempo suficiente para postar uma carta.
Enquanto aguarda sua vez o vivido homem ainda abre o envelope e, contemplando a própria caligrafia, vê-la um tanto trêmula, mas caprichada. Ler para si, e agora para ti, leitor, o teor lírico de suas linhas incrusto em sua alma:
Bacabal, em 25 de agosto do Anno Domini de MMXI.
Estimada Adelaide,
Cá o céu brilha intenso neste dia do soldado, e a tarde assola em batalha climática o horizonte bacabalense.
A princípio devo dizer-te que isto não se trata de uma carta e sim de um bilhete. Bem sabes que minhas cartas são longas e doces e esta quiçá te chegue um tanto amarga e repentina. Amarga pelos dissabores que trespassam o conteúdo e repentina porque não pude deixar para depois meu abraço de saudade há muito tempo adiado.
Desde que parti daí, estive observando o quanto a vida na cidade é diferente daquela que levávamos no campo. Sabe, aquela vivência aconchegante, a doçura das casinhas de taipa, o cheiro de terra molhada, a fruta doce e natural colhida no pé, tudo isso aqui cede lugar às casas esbaforidas pelo calor torrencial do asfalto, do concreto, das calçadas irregulares.
Os ares cá se atopetam de torres, fios e poluição, com lixões a céu aberto, onde meninos, mulheres, porcos, etc., se alimentam do mau cheiro e da contaminação. Aquela liberdade de prosear na porta ou à sombra dos cajueiros, aqui são um sonho e os chamados “de menor” fazem o que querem com a Justiça, que os resguarda mesmo em constante delinquência. Aqui, enfim, está um caos social que me custa acreditar. Como diz (Waldick?): “Quero voltar pro interior”.
Teria muito ainda a te falar desse mundo louco no qual me vejo incluso. Sim, pois já estou presenciando, o que diziam nossos pais, “a roda grande passar por dentro da pequena”. Essa modernidade até me faz pensar: o que será do amanhã?
Meu tempo urge, meu papel se finda. Um dia te estarei de volta. Quem sabe na primavera...
Fica por agora com meu terno abraço e minha saudade tamanha.
Arcângelo
P.S. – Beijos doces nessas crianças lindas.
COSTA FILHO, João Batista da que também representa o heterônimo Edgar
Moreno.